Da Serra até ao Mar


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Dia 23 de junho, vários africanistas, mas não só, saltaram da cama, mais coisa menos coisa, às seis da manhã. O dia apresentava-se sem chuva, sem vento, pelo que se adivinhava um fresquinho esquisito. Devem ter sido várias as hesitações entre os participantes, de Évora, Santo André, até bem mais para norte, à Benedita, sobre o que calçar e vestir com o calor que se ia revelando.

Pontos de encontro definidos lá foram saindo os grupos. O mais numeroso marcou a reunião nas bombas da Repsol na 2ª circular de Lisboa às 07:30. Maioritariamente composto com AT’s, também fomos brindados com Transalp’s, uma XTZ 660, uma KTM 690 e uma X-ADV que ao final do dia validou a razão pela qual a Honda lhe colou o sufixo. Com os devidos cuidados, não se negou a nada. O amigo Zé Sardinha deixou a sua CRF 250 Rally a descansar e veio mais bem instalado na sua Goldwing, animando o grupo com o som da sua alta fidelidade. O track desenhado pelo nosso navegador de eleição, o António Carrilho, previu troços alternativos e pontos de reagrupamento para as secções fora de estrada, pelo que não haveria problema.

Rumo à Benedita com azimute ao restaurante “O Bigodes”, porque à chegada, já se sabia que o Nelson nos garantia a oferta de um pastel de nata e uma bica da parte da casa. E assim foi. Saíram os belos do pasteis acompanhados pela afamada aguadilha nacional já com o grupo mais composto pelos que também chegavam de outros locais. O Mário Bento Correia com o seu grupo, vindo de Santo André, juntar-se-ia mais tarde lá para os lados das salinas da Rio Maior.

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Feito o briefing inicial pelo Nelson, ficámos a saber um pouco mais da sua região, nomeadamente do ponto de vista empresarial, que a projeta no país e no mundo. Quase em jeito de desculpa, disse-nos que a Benedita não era bonita. Costuma dizer-se que quando rima, é verdade. Pouco importa porque o que aí vinha de serra e lugares abafou aquela afirmação. Vistas largas, desfiladeiros, estradões, trilhos e curvas asfaltadas que fazem as delícias de qualquer motociclista. O espírito de aventura “Go anywhere” ganhou uma cereja no topo de bolo!

À hora marcada iniciamos a jornada e, pasme-se, ao contornarmos a Benecar, fomos brindados, um a um, com um presente desta unidade empresarial. Afinal a Benedita é linda na arte de receber. Surpreendidos com o mimo, lá seguimos e eis que, na conhecida fábrica de reputação internacional no fabrico de facas, a Icel (os famosos canivetes suíços e os chefes de culinária que se prezam, elegem aqui o aço das suas lâminas), estacionámos as motas num parque com o estacionamento para cada um sinalizado por um brinde, onde, como não poderia deixar de ser, estava um belo dum canivete, mas não só. Apesar de ser sábado, dia de folga do Nelson, foi com um orgulho indisfarçável que o anfitrião nos falou do seu local de trabalho, sob o olhar atento do patrão com um sorriso nos lábios.

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Feita a visita, partimos para o ponto de paragem seguinte, serra a cima já com estradões fora de estrada, de vistas largas, muitos largas mesmo. Fomos recebidos numa unidade de turismo de habitação, a Casa das Gralhas, com mais umas prendinhas e com uma vista que permite, serra abaixo, perceber Peniche, Nazaré, Berlengas, Leiria, … Alguns comentavam que ficavam já ali … não fosse a irresestível tentação em descobrir o que o passeio reservava. Ganharam a aposta!

A partir daqui a Goldwing do Zé Sardinha teve que tomar outros caminhos para se reunir mais à frente. Está tudo dito, passámos a ter as gigantescas pás das eólicas como companheiras que ladeavam os estradões. Felizmente que as chuvas dos dias anteriores acalmaram o pó que seria com certeza mais que muito. O calor fazia das suas e lembrava aos que tinham botas ADV que os pés são uma parte bem presente nas peseiras das motas! Fomos para zonas de água, água salgada das Salinas de Rio Maior. Bem afastadas do mar, houve quem molhasse o dedo para provar o cloreto de sódio e, com a degustação da água abundantemente temperada, rapidamente se encheu o bar do sítio com pedidos de águas várias, desde as incolores até às aguinhas Superbock ou Sagres, sempre em quantidades minis.

Siga caminho para um dos pontos altos e para o deleite do olhar: a Fórnea de Porto Mós. Anfiteatro natural esculpido por tempos jurássicos que escapam ao tempo das nossas vidas, este maciço calcário revestido de matos baixos, deslumbra-nos com os seus 500m de diâmetro e 250m de altura.

As sensações da garganta alongaram-se para o estômago e havia que procurar conforto para mais esta sensibilidade. Ala para a Gralha, restaurante situado em Alvados junto às conhecidas grutas de Santo António. Estacionadas a motas com comentários sobre os 36 graus que se faziam sentir, fomos recebidos numa sala à parte só para nós, com uma temperatura bem mais convidativa. Rapidamente um dos cantos do espaço viu crescer uma montanha de blusões e capacetes. Iniciou-se a azáfama com pão e queijo, fresco como convinha, seguida de uma magnífica sopa de peixe, lombo de porco enrolado em bacon, rematado por cafés e sobremesa. O Nelson não brinca em serviço e os elogios comprovaram o agrado geral.

O calor teimava em manter-se cá fora e nada melhor do que passar um local menos soalheiro e  com temperaturas a rondar os 18 graus, coadjuvado por pingos de água que teimavam cair sobre as nossas cabeças. Foi a incursão mágica às grutas de Santo António, descobertas em 1955 por um menino de 5 anos perseguindo o esvoaçar de uma gralha que se refugiou e desapareceu num algar. A criança foi chamar o avô, que munido de cordas e à luz de fósforos lá desceu à gruta marcando a sua descoberta. Por aquilo que vimos, o avô era um homem de coragem. Orientados por um guia com uma voz que por estes dias nos fez lembrar uma sonoridade à Bruno de Carvalho, mas muito mais melodiosa, lá fomos percebendo que o tempo das nossas vidas é insignificante face à mãe natureza. Entre estalactites e estalagmites, umas a crescer dos tetos e outras do solo, fomos ficando boquiabertos com estas estranhas formações minerais e com a palete de cores que as águas infiltradas nas fendas calcárias vão pintando. Como na observação de nuvens, cada um descobria formas que a sua imaginação permitia. Ao Armando Polónia assaltou-lhe a imagem do suplemento “Calcitrin”, logo acompanhada de uma sonora boa disposição dos participantes. Outros descobriram outras formas, algumas angélicas e outras nem por isso. Algumas destas estruturas tinham uma envergadura de 3 metros. Cada centímetro demora 100 anos a formar-se. Façam as contas! O grupo pareceria um conjunto de japoneses em turismo tal a profusão de flashes. Foi sem sombra para dúvidas, ainda que com muita e agradável sombra, outro ponto alto do passeio. Mas havia que regressar à superfície e a outras temperaturas. Continuava acima dos 30 graus. Foi o momento de algumas despedidas para aqueles que vinham de mais longe ou que tinham compromissos. O Pedro Saragoça, homem habituado às temperaturas alentejanas reuniu o grupo e fazendo um balanço da manhã destacou a iniciativa do Nelson, por ser uma estreia na programação de passeios feito por um membro do grupo CRRF 1000L PT. Todos os anteriores passeios foram concebidos e organizados pelo grupo restrito dos administradores. Ficou assim feito o desafio e lançado o repto para, todos aqueles que quiserem partilhar passeios nas suas zonas ou em locais de interesse, se associarem à preparação de passeios. Naturalmente que contarão sempre com o apoio dos administradores, nomeadamente no reconhecimento dos percursos. Mais uma vez obrigado Nelson.

Outra vez a caminho, passámos pelo Castelo de Porto Mós e, a convite do Paulo Ferreira, por Alvados onde rematámos o pós-almoço com umas minis oferecidas por quem faz questão de receber  os amigos na sua casa. O resto da tarde reservou-nos mais deleite pela Serra, desta vez com troços mais estreitos e trialeiros, que em serra calcária é sinónimo de subidas e descidas com alguma pedra solta. A camaradagem e o espírito de entreajuda permitiram superar a apreensão de alguns, terminando todos com um sentimento de capacidade e sem uma única queda. A satisfação era o denominador comum, mesmo para aqueles já habituados a estas coisas do offroad, merecendo fotos do grupo.

Regressados ao local de partida, no restaurante “O Bigodes”, foi tempo de comprar umas iguarias para levar à família e fechar o convívio com mais dois dedos de conversa. Ficou no ar o mês de outubro para o segundo encontro nacional em Castelo Branco, onde o Valério Gonçalves, que não pode participar neste passeio, vai compondo as coisas.

Ao longo do dia, no pensamento de muitos de nós, esteve o Jorge Espadinha. No fim de semana anterior, com o Nelson, o António Carrilho, o Armando Polónia e o João Carvalho, fez o reconhecimento deste percurso. Porém, compromissos familiares impediram a sua presença. Ainda ficámos na expetativa que aparecesse ao almoço, mas os constrangimentos não o permitiram. Sentimos a falta da sua segunda CRF Dakar, esta de 2018. Mas não faz mal porque ainda temos muitos quilómetros de convívio pela frente. Como aquela cabeça não pára, desconfiamos que ainda vamos ter algumas surpresas antes do encontro nacional.

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Até à próxima e façam o favor de ser felizes.

Francisco Rodrigues

Aos 18 anos não tinha carro e tinha uma 125cc. Dezasseis motas e mais de 40 anos depois ainda não tem carro, … mas já teve uma XRV e hoje tem uma CRF!